Exposição Pantanal Revelado - a Alma de um Território
Todo carnaval tem seu fim
- Date
- 2026
- Location
- Poconé, Mato Grosso, Brasil

Texto Curatorial
Há um momento em que a festa deixa de ser acontecimento e passa a ser lembrança. A Cavalhada de Poconé está quase terminada quando esta fotografia é feita. Os cavalos já não estão aqui, os cavaleiros partiram, a música silenciou. No lugar da celebração, permanece a terra remexida e uma pequena coleção de objetos que perderam a invisibilidade cotidiana: pedaços azuis, embalagens, um fio, óculos. O chão guarda uma espécie de contabilidade material daquilo que acabou.
Foi também o instante em que nossa viagem começava a se despedir. Éramos um grupo de fotógrafos que havia atravessado o Centro-Oeste em busca de imagens, mas encontrou muito mais. Vieram os animais, as festas religiosas, os templos, as pessoas, as refeições preparadas para nos receber, a atenção de quem nos abriu as portas. Vieram encontros que não cabem inteiramente no arquivo fotográfico.
Entre eles, José Medeiros. Tenho orgulho de chamá-lo de amigo. Sua relação com o Pantanal é construída há anos, pela proximidade com as pessoas, suas festas, crenças e modos de vida. José fotografou as Cavalhadas de Poconé e outras manifestações do Mato Grosso sem reduzir o território à imagem fácil de uma natureza monumental. Seu trabalho me ajudou a perceber que existe um Pantanal humano e cultural cuja riqueza exige tempo, convivência e atenção.
Talvez por isso esta fotografia não precise mostrar a Cavalhada. Ela mostra o que acontece quando uma manifestação desaparece do campo de visão. O acontecimento deixa de estar diante de nós, mas não desaparece por completo. Fica no chão, na memória, nas histórias que serão contadas e nas fotografias que carregamos para longe.
Há uma ironia no título. Não é Carnaval, é Cavalhada. Mas toda festa conhece o seu fim. Toda viagem também. A questão está no que cada uma delas deixa em quem esteve presente.
Eu saí do Pantanal diferente. Não por alguma revelação grandiosa, mas porque a convivência acumulou marcas. Algumas cabem numa fotografia. Outras continuam trabalhando dentro de nós muito depois da partida.
Acabou. Terá mais. Isso eu sei.