3 / 9

Exposição Pantanal Revelado - a Alma de um Território

Todo carnaval tem seu fim

Date
2026
Location
Poconé, Mato Grosso, Brasil

Texto Curatorial

Há um momento em que a festa deixa de ser acontecimento e passa a ser lembrança. A Cavalhada de Poconé está quase terminada quando esta fotografia é feita. Os cavalos já não estão aqui, os cavaleiros partiram, a música silenciou. No lugar da celebração, permanece a terra remexida e uma pequena coleção de objetos que perderam a invisibilidade cotidiana: pedaços azuis, embalagens, um fio, óculos. O chão guarda uma espécie de contabilidade material daquilo que acabou.

Foi também o instante em que nossa viagem começava a se despedir. Éramos um grupo de fotógrafos que havia atravessado o Centro-Oeste em busca de imagens, mas encontrou muito mais. Vieram os animais, as festas religiosas, os templos, as pessoas, as refeições preparadas para nos receber, a atenção de quem nos abriu as portas. Vieram encontros que não cabem inteiramente no arquivo fotográfico.

Entre eles, José Medeiros. Tenho orgulho de chamá-lo de amigo. Sua relação com o Pantanal é construída há anos, pela proximidade com as pessoas, suas festas, crenças e modos de vida. José fotografou as Cavalhadas de Poconé e outras manifestações do Mato Grosso sem reduzir o território à imagem fácil de uma natureza monumental. Seu trabalho me ajudou a perceber que existe um Pantanal humano e cultural cuja riqueza exige tempo, convivência e atenção.

Talvez por isso esta fotografia não precise mostrar a Cavalhada. Ela mostra o que acontece quando uma manifestação desaparece do campo de visão. O acontecimento deixa de estar diante de nós, mas não desaparece por completo. Fica no chão, na memória, nas histórias que serão contadas e nas fotografias que carregamos para longe.

Há uma ironia no título. Não é Carnaval, é Cavalhada. Mas toda festa conhece o seu fim. Toda viagem também. A questão está no que cada uma delas deixa em quem esteve presente.

Eu saí do Pantanal diferente. Não por alguma revelação grandiosa, mas porque a convivência acumulou marcas. Algumas cabem numa fotografia. Outras continuam trabalhando dentro de nós muito depois da partida.

Acabou. Terá mais. Isso eu sei.

ENPTES