Exposição Pantanal Revelado - a Alma de um Território
Olho no olho
- Date
- 2026
- Location
- Porto Jofre, Pantanal, Brasil
Texto Curatorial
Makala atravessa um momento particular de sua história. Ainda próximo do tio Pantaneiro, aproxima-se da idade adulta, quando essa convivência deverá adquirir outra configuração. Esse dado funciona como ponto de entrada para uma situação mais difícil de nomear.
Tenho uma sequência de imagens em que Makala olha diretamente para mim. Não há como ignorar essa direção. O que não posso afirmar é o motivo. Posso imaginar curiosidade, interesse pela minha presença ou atenção a alguma coisa que eu próprio não percebia. A garra retrátil aberta acrescentava outra possibilidade: talvez estivesse relacionada à sua atenção, talvez servisse para se apoiar, talvez não tivesse relação alguma com o que acontecia. A ideia de um ataque, além de improvável diante do que conheço das situações vividas no Pantanal, pertence à brincadeira provocada pela cena, não a uma leitura séria de seu comportamento.
O que permanece é uma assimetria de conhecimento. Eu sei que Makala me olhava, porque a sequência torna isso evidente. Não sei o que aquele olhar significava para ele. A experiência de acompanhar uma onça permite acumular informações sobre um indivíduo, reconhecer sua história, distinguir comportamentos e construir familiaridade com sua presença. Nada disso concede acesso à experiência do animal. Conhecer não elimina o desconhecido.
É justamente essa distância que me interessa na fotografia. O olhar de Makala estabelece uma relação concreta comigo, mas não oferece uma explicação sobre ela. A imagem registra uma situação compartilhada sem resolver o que cada um conhecia da presença do outro. O que vejo também depende do que já sei sobre Makala, enquanto o que Makala percebia permanece fora do alcance da fotografia.
Por isso, “Olho no olho” não procura transformar o encontro em uma certeza. A fotografia sustenta uma pergunta sobre os limites do conhecimento quando o outro pertence a uma experiência que não podemos acessar diretamente. Makala me olha. Eu posso registrar esse olhar. O motivo continua sendo dele.
