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Exposição Pantanal Revelado - a Alma de um Território

O último mergulho do Biguá

Date
2026
Location
Porto Jofre, Pantanal, Brasil

Texto Curatorial

O encontro entre o jacaré e o biguá concentra uma relação que a fotografia torna difícil de manter à distância. O pássaro mergulha para buscar alimento e, dentro da mesma água, encontra o predador. Quando o jacaré emerge, o biguá ainda permanece nitidamente em sua boca, preso entre a mandíbula e os dentes. A força da mordida foi suficiente para lançar suas vísceras sobre a carapaça do pescoço.

A imagem desloca o olhar para uma dimensão da vida que raramente se oferece com essa proximidade. A predação acontece em meio à água, à vegetação, aos reflexos e ao movimento, integrada ao mesmo ambiente que sustenta tanto o animal que caça quanto aquele que será consumido. A fotografia não cria uma narrativa para explicar o acontecimento. Ela nos coloca diante de uma relação já constituída pelas condições daquele lugar.

Não há crueldade nessa cena. Há as regras da vida, a lei da fome. O jacaré não precisa ser convertido em ameaça, assim como o biguá não precisa ser transformado em personagem de uma tragédia. A captura pertence a uma rede de relações em que cada organismo responde às próprias necessidades e às condições do ambiente.

É justamente essa proximidade que produz a força da fotografia. O que normalmente permanece oculto torna-se perceptível: a boca ainda aberta, o corpo do pássaro entre os dentes, as marcas da mordida sobre a carapaça. A imagem aproxima diferentes escalas de existência e faz com que o espectador participe, por alguns segundos, de uma situação que não foi organizada para o seu olhar.

Pensada a partir de uma perspectiva relacional, a fotografia não encontra seu sentido em um único animal. O acontecimento emerge da conexão entre corpos, água, alimento, predador e território. O Pantanal aparece como uma trama ativa de relações, onde a existência de cada forma de vida interfere na existência das demais.

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