1 / 2

Exposição Pantanal Revelado - a Alma de um Território

Cavalhada de Poconé: um conflito simbólico

Date
2026
Location
Poconé, MT

Texto Curatorial

Na manhã em que as bandeiras ocupam o campo, ninguém procura Carlos Magno. Também não se percorrem os caminhos da Península Ibérica. O nome dos Mouros e dos Cristãos continua pronunciado, mas a paisagem já pertence ao Pantanal. A poeira não conhece castelos. Os cavalos jamais cruzaram fronteiras mediterrâneas. Ainda assim, a narrativa permanece compreensível porque encontrou outro lugar para existir.

A história chegou como empréstimo. Poconé recusou a condição de depositária. Alterou a cadência, submeteu o antigo romance cavaleiresco ao calendário de São Benedito e permitiu que a experiência local substituísse a fidelidade documental. Aquilo que nasceu como literatura transformou-se em compromisso coletivo. A cada edição, a cidade não revive um episódio remoto; reafirma a autoridade de decidir o que merece continuar sendo contado.

Os vinte e quatro cavaleiros conhecem um roteiro transmitido durante décadas. Argolas, bastões, carreiras, a tomada do castelo e a captura da rainha moura obedecem a uma ordem precisa. Nada, porém, encontra sentido isoladamente. Cada episódio depende do anterior e prepara o seguinte, como um manuscrito cuja leitura exige a presença integral de todas as páginas. Retirar uma delas comprometeria o entendimento do conjunto.

Talvez resida nesse aspecto a singularidade das Carvalhada de Poconé.

A antiga disputa jamais desapareceu; perdeu a obrigação de permanecer europeia. O Pantanal não recebeu uma lembrança pronta. Recebeu uma narrativa suficientemente aberta para admitir outra terra, outra devoção e outra maneira de compreender o mundo. Desde então, o enredo deixou de viajar. Encontrou destino.

ENPTES