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Tempo

Resta Um

Curatorial text

No Resta Um, cada escolha modifica aquilo que ainda pode acontecer. Quando uma peça é retirada, as demais deixam de ocupar a mesma posição dentro do conjunto e passam a depender de uma disposição que não existia antes. A partida avança por consequências. O que foi eliminado não retorna, e cada possibilidade seguinte nasce das alterações produzidas pelas anteriores.

A ação do tempo sobre as coisas guarda uma relação inesperada com essa lógica. Não porque o tempo faça escolhas, mas porque sua continuidade modifica, pouco a pouco, aquilo que encontra pelo caminho. O desgaste altera superfícies, a oxidação compromete estruturas, o uso deixa marcas, a exposição modifica cores e formas. O que vemos hoje resulta de uma sucessão de acontecimentos que não precisamos ter presenciado para reconhecer seus efeitos.

A antiga locomotiva fotografada pertence a uma ordem industrial em que cada componente respondia a uma finalidade precisa. O ferro precisava conservar resistência; as peças, permanecer integradas; o conjunto, suportar o trabalho para o qual havia sido concebido. Décadas de existência submeteram essa construção a outras circunstâncias. A oxidação avançou sobre o ferro, modificando sua superfície e sua integridade. A interrupção da função acrescentou outra ruptura: uma máquina destinada ao deslocamento passou a existir fora do sistema para o qual havia sido criada.

A ferrugem interessa justamente porque torna essa ação perceptível. Ela não simboliza o tempo. É consequência de uma reação que se prolonga e modifica progressivamente o ferro. Cada alteração física registra uma história que não está contida em palavras, mas na própria aparência adquirida pelo objeto. O passado não está simplesmente representado. Está inscrito naquilo que os anos fizeram com ele.

Resta Um amplia essa percepção. No jogo, cada retirada limita as possibilidades seguintes. Aqui, cada alteração sofrida pela locomotiva também modifica aquilo que poderá acontecer com ela. Não existe jogador calculando o próximo lance, nem finalidade conduzindo o processo. Existe exposição, duração e consequência. O que desaparece ou se transforma participa da forma que virá depois.

A fotografia interrompe esse percurso apenas para o nosso olhar. Fixa uma condição enquanto a ação temporal continua fora da imagem. O registro guarda um estado que já começou a deixar de existir no instante em que foi fotografado.

Resta Um pode então nomear aquilo que sobra depois de uma longa sequência de alterações. Não como vitória, nem como conclusão, mas como resultado provisório de uma história que continua atuando. O que encontramos diante da câmera não é algo que escapou ao tempo. É uma coisa sobre a qual o tempo já deixou de ser invisível.

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