Tempo
Oito infinito

Curatorial text
Foi bater o olho nesta imagem e lembrar do infinito. Do símbolo. Do oito deitado que aprendi no ensino médio. Confesso que gosto mais dele do que da matemática. Nunca tive problemas sérios com as matérias exatas. Também nunca tive predileção por elas. Exigiam uma dedicação maior e um tipo de raciocínio que não me atraía. O pensamento cartesiano me incomoda. O sentir me abre mais os olhos. Os olhos da alma e do coração.
Meu pai era o meu inverso. Completamente matemático. Inclusive na vida cotidiana e social. Para ele tudo tinha uma função. Uma sandália servia para proteger o pé e evitar que a sola se machucasse. Ele não entendia por que uma de dois mil reais seria melhor do que outra de seis e cinquenta. Talvez na comida houvesse uma exceção. Mesmo assim até no fim da vida ele ficou ainda mais cartesiano. Tudo precisava ter um fundamento. Marca. Conforto. Ego. Exclusividade. Tudo isso lhe parecia supérfluo quando não alterava a função daquilo que estava diante dele.
Foi olhando para estas rodas que pensei novamente nisso. Elas foram feitas para uma função muito específica dentro de uma máquina. Hoje estão diante de mim por outra razão. A posição em que se encontram produz uma forma que reconheço imediatamente. O oito deitado. O infinito.
Talvez seja justamente essa mudança de lugar que tenha me feito pensar tanto nesta imagem. Uma coisa pode deixar de cumprir aquilo para que foi criada e ainda assim continuar produzindo alguma coisa em quem a observa. A função original permanece na história da locomotiva. Mas já não é suficiente para explicar o que vejo.
E o que vejo me leva ao infinito.
Não sei se o infinito existe como conseguimos imaginá-lo. Sabemos representá-lo. Sabemos dar a ele um símbolo. Sabemos falar sobre ele. Mas pouco sabemos sobre o que seria realmente experimentar algo que não termina. É uma ideia que conhecemos mais pela linguagem do que pela experiência. Talvez aconteça algo parecido quando pensamos em um buraco negro. Sabemos de sua enorme capacidade de atração. Muito do que existe além disso permanece distante daquilo que conseguimos experimentar.
Foi então que me lembrei do meu avô materno. Aos cem anos ele me disse que viver para sempre deveria ser uma maldição. Nunca esqueci a frase. Talvez porque, naquela idade, a ideia de eternidade pudesse ser vista de um lugar completamente diferente. Também pensei no pequeno Sr. Jingles de À Espera de um Milagre. Ele continua vivendo enquanto tudo ao seu redor desaparece. A história do rato parece tocar exatamente nesse lugar estranho em que a permanência deixa de ser necessariamente um desejo.
Nada é para sempre. O tempo age sobre tudo. O ferro oxida. As superfícies mudam. As coisas se desgastam. Nós também mudamos. Continuo pensando que somos nós que passamos pelo tempo. O tempo não precisa passar para que suas consequências apareçam.
Talvez por isso o infinito me interesse mais como símbolo do que como conceito. Gosto do oito deitado. Gosto da forma como ele se fecha e continua. Gosto dele até como carta de baralho. É uma figura que me atrai antes de qualquer explicação.
Também não gosto de descartar. Não gosto de jogar fora aquilo que ainda pode ter alguma coisa a dizer. Não gosto de perder o tempo das coisas. Talvez seja essa uma das razões pelas quais esta imagem tenha me prendido. Uma parte de uma máquina que já não cumpre sua função continua diante de nós e ainda consegue produzir outra leitura.
Dentro de Tempo a fotografia encontra uma questão que não precisa ser resolvida. O infinito aparece como uma forma que reconheço. A locomotiva aparece como algo que mudou com os anos. Entre uma coisa e outra existe a experiência de olhar e descobrir que uma forma pode continuar produzindo sentidos depois que aquilo para que foi criada já deixou de existir.