Patrimônio Prospectivo: Gravidade
De perto ninguém é normal
- Location
- Skatepark do Subúrbio, Salvador, Bahia
Texto Curatorial
"De perto, ninguém é normal". Talvez a frase de Nelson Rodrigues encontre aqui uma de suas perversões: a normalidade depende da distância de quem olha. Há uma elegância que não precisa anunciar a própria dificuldade. Em Augusto Akio ela parece ter aprendido a desaparecer dentro da precisão, como Federer, cuja excelência tantas vezes adquiria a aparência de um movimento inevitável.
Talvez exista também algo da sutileza de Bobô nessa economia corporal, uma inteligência que não desperdiça força onde a técnica já encontrou seu lugar. O rosto permanece sereno, como se o corpo tivesse alcançado uma espécie de quietude enquanto tudo ao redor exige cálculo. Nenhum excesso denuncia o esforço. A concentração parece ter se tornado estado natural.
O shape carrega outra história. As ranhuras parecem guardar uma espécie de caligrafia do aprendizado. Cada risco nasce de uma tentativa, de um movimento que o corpo já não precisa repetir da mesma maneira. O que a prancha denuncia, o rosto de Akio parece ter esquecido de contar.
Talvez seja essa a estranheza que me interessa: a excelência raramente se apresenta como espetáculo para quem aprendeu a reconhecê-la. Há uma inteligência no corpo que a fotografia consegue deter por um instante, antes que o movimento desapareça do quadro. Talvez seja justamente nesse intervalo que Akio pareça tão à vontade, como quem já fez da gravidade uma língua própria.
