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Patrimônio Prospectivo: Gravidade

Cadeira de balanço

Date
2026
Location
Skatepark do Subúrbio, Salvador Bahia

Texto Curatorial

Minha avó tinha uma cadeira de balanço logo depois da porta de entrada. Sete netos disputavam aquele lugar com a seriedade própria das pequenas hierarquias familiares. Quando éramos muito pequenos, a cadeira servia para o colo; depois, continuamos procurando nela alguma coisa que a infância sabia pedir sem nomear.

Foi esse vínculo que a fotografia devolveu quando encontrei, anos depois, uma lembrança doméstica dentro de uma prática que nunca havia associado à minha família. A imagem abriu uma passagem entre tempos da minha vida, sem precisar reuni-los numa explicação.

A cadeira deixou de fazer parte da casa, e minha avó se foi. Restou uma arquitetura afetiva construída por repetições mínimas: esperar a vez, ocupar um lugar, adormecer perto dela, voltar quando fosse possível. Certos objetos domésticos acumulam uma história que nenhuma etiqueta conseguiria registrar. Seu valor nasce das vidas que tocaram sua existência.

A fotografia possui essa capacidade estranha de reabrir quartos que já não existem. O skate encontrou uma cadeira dentro da minha memória e, com ela, uma infância que hoje reconheço como privilégio.

Talvez seja justamente a fotografia que permita à lembrança encontrar um lugar no presente.

ENPTES