Patrimônio Prospectivo: Cidade
Quando as casas podem partir, ou quando os trens precisam ficar
- Date
- 2026
- Location
- Skatepark do subúrbio, Paripe, Bahia, Brasil
Texto Curatorial
Amo esta fotografia pela inquietude que desperta em mim. Gosto da liberdade com que ela me permite imaginar e encontrar histórias distintas numa mesma configuração urbana. Nunca a vejo exatamente da mesma maneira. Há momentos em que as construções reunidas na encosta assumem a aparência de vagões justapostos, pequenas unidades à espera de uma partida; em outros, tornam-se casas, cada qual guardando a possibilidade de uma existência inteira. As cores são fundamentais nessa transformação. Suas diferenças conferem individualidade às construções, distinguem volumes e sugerem personalidades. Na leitura dos trens, imagino vagões singulares, reunidos numa composição que aguarda o início de uma viagem. Na leitura das casas, reconheço moradias distintas, cada qual destinada a abrigar alegrias, tristezas, dificuldades, conquistas e cotidianos que jamais conhecerei. Nenhuma interpretação encerra a outra. Embora limitada à superfície bidimensional, a fotografia oferece profundidade à imaginação e me permite enxergar para além do que está diante da câmera. Talvez seja essa a razão mais íntima do meu apreço por ela: sua capacidade de me deslocar sem sair do lugar, de me fazer sonhar com outras dimensões da realidade e encontrar, em cada olhar, uma história diferente.
A relação entre a ferrovia e as habitações adquire, em Salvador, uma dimensão que ultrapassa a coincidência arquitetônica. A cidade foi constituída por deslocamentos, ocupações, distâncias e formas de adaptação que determinaram sua expansão e a experiência de seus habitantes. A presença de uma infraestrutura de mobilidade junto a áreas residenciais participa de uma transformação urbana cujo significado não se esgota na circulação de passageiros. Há uma questão de reconhecimento nessa proximidade: a infraestrutura pública integra a vida de regiões cuja produção cultural e social antecede sua incorporação aos projetos institucionais. O trem carrega a promessa de outros destinos; as casas guardam a densidade de vidas que não cabem em itinerários. Entre ambos, a cidade admite leituras sucessivas, tantas quantas forem as possibilidades de quem a contempla. Talvez seja essa a liberdade da fotografia: permitir que uma casa parta sem abandonar seu lugar e que um trem fique sem perder a vocação de seguir viagem.
