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Exposição Pantanal Revelado - a Alma de um Território

Depois do rosto

Date
2026
Location
Poconé, Mato Grosso, Brasil

Texto Curatorial

O Pantanal costuma chegar à fotografia pelo corpo dos animais, pela água, pelo fogo e pela extensão da paisagem. Essa recorrência construiu uma imagem poderosa do território, mas pode reduzir sua riqueza ao que a natureza oferece ao olhar. Em Poconé, os Mascarados deslocam essa perspectiva. O território também se reconhece pelo que seus habitantes aprenderam a fazer e transmitir.

Nesta fotografia, três corpos aparecem vestidos para uma dança presente na história cultural da cidade. As máscaras retiram deles a identidade cotidiana. Ninguém sabe, na dança, quem é quem. O anonimato não é um efeito da fotografia, mas uma condição da manifestação. O grupo é formado tradicionalmente por homens, que representam personagens masculinos e femininos. Historicamente, o preto ou cinza esteve associado aos galãs e o rosa às damas. Estudos registram que essa diferenciação cromática deixou de ser uma regra rígida nas últimas décadas. Aqui, ela reaparece como uma convenção transmitida entre gerações. 

A representação das mulheres por homens pertence à forma ritual da dança. É uma convenção performática na qual o corpo cotidiano assume uma personagem, enquanto a máscara interrompe a identificação individual. A pessoa permanece, mas sua presença passa a depender de uma forma coletiva de pertencimento. Estudos sobre os Mascarados relacionam justamente o ocultamento da identidade à construção de uma experiência comum entre os integrantes do grupo. 

As cores intensas, os tecidos, as franjas, os bordados, as lantejoulas, os espelhos e as penas fazem do traje um arquivo material. Esses elementos participam da fabricação dos personagens e da continuidade de uma prática que se transforma. 

O Pantanal precisa ser olhado também nessa escala. A fauna é parte fundamental de sua existência e imaginação, mas não esgota sua realidade. Há uma história de corpos, festas, crenças, música, devoção e invenção cultural que também produz o território. Os Mascarados tornam essa dimensão visível ao fazer do corpo um lugar de transmissão. Quando a fotografia reúne três figuras sem nomes, registra uma comunidade cuja continuidade depende de cada novo dançante assumir uma forma que o antecede. O rosto desaparece; a tradição permanece reconhecível.

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