Saia Sagrada

A saia de folhas secas de bananeira ocupa um lugar singular no Nego Fugido de Acupe, sobretudo pelas relações que os próprios participantes estabelecem entre essa planta, os mortos e as forças ancestrais. Isabela dos Santos Reis, pesquisadora formada pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), investigou a manifestação em Nego Fugido: a cultura acupense em suas encruzilhadas. A partir de entrevistas com integrantes do grupo, Reis registra que Egum pode se esconder sob as folhas da bananeira e que o ruído produzido pelo movimento da saia pode espantar entidades.

Monilson dos Santos Pinto, artista e pesquisador das artes cênicas, realizou seu mestrado na Universidade Estadual Paulista (UNESP) e doutorado na Universidade de São Paulo (USP), dedicando sua pesquisa ao Nego Fugido. Em A bananeira que sangra: desobediência epistêmica, pedagogias e poéticas insurgentes nas aparições do Nego Fugido, Pinto investiga a transmissão dos conhecimentos de Acupe e documenta a narrativa segundo a qual escravizados mortos teriam sido enterrados sob bananeiras. Quando essas plantas eram cortadas, segundo a tradição, delas sairia sangue. A bananeira torna-se, nessa narrativa, uma referência aos mortos da escravidão e à continuidade de seus vínculos com a comunidade.

A saia também possui uma dimensão funcional registrada por Reis. A pesquisadora recolhe relatos segundo os quais a palha seca era utilizada para camuflagem, conhecimento associado pelos interlocutores a práticas indígenas da região. As folhas permitiam ocultar a figura entre a vegetação, fazendo da mesma peça um recurso para a ação desempenhada durante a manifestação.

Maria José Villas Boas, antropóloga e pesquisadora vinculada à Universidade Federal da Bahia (UFBA) e à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), acompanha o Nego Fugido desde 2012. Em sua pesquisa etnográfica, investigou personagens, objetos, sons e práticas da manifestação, incluindo as relações estabelecidas com culturas de terreiro. Seus estudos também registram que não existe consenso entre as lideranças de Acupe sobre a classificação do Nego Fugido como manifestação ligada ao Candomblé. A relação deve, portanto, ser tratada a partir dos conhecimentos específicos encontrados na comunidade, sem transformar a saia em paramento litúrgico.

Stela Guedes Caputo, antropóloga e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), pesquisou comunidades de terreiro dedicadas ao culto de Egum. Em Conhecimento e memória no culto de Egum: a confecção da casa-corpo da morte, Caputo analisa as roupas utilizadas para a manifestação dos ancestrais mortos. Seu estudo não trata do Nego Fugido, mas oferece um contexto para compreender a importância religiosa atribuída às vestimentas relacionadas aos ancestrais.

A bananeira pertence ao gênero científico Musa, da família Musaceae. A botânica identifica a planta como um grupo de espécies e híbridos cultivados, entre eles Musa acuminata. Em Acupe, porém, seu significado não é determinado pela classificação botânica. É a tradição transmitida pela comunidade que associa suas folhas aos mortos, a Egum e às forças mobilizadas durante a manifestação.

A saia reúne essas referências em uma única peça: folhas de uma planta vinculada aos mortos da escravidão tornam-se roupa; seu movimento produz um som relacionado ao afastamento de entidades; sua estrutura permite ocultamento; e sua associação com Egum situa a vestimenta em uma compreensão própria sobre os ancestrais. O sagrado, nesse caso, não está separado da planta: é a própria folha que leva para a cena uma história construída e transmitida em Acupe.

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