Exposição Recôncavo: um mundo de muitos mundos e mistérios
Ninguém está só
- Date
- 2026
- Location
- Cachoeira, Bahia, Brasil
Texto Curatorial
Existe certa pressa em atribuir tristeza às figuras solitárias. Talvez orque o olhar apressado pretira respostas imediatas, e respostas imediatas raramente conduzam às interpretações mais profundas.
Foi essa a impressão que tive ao fazer esta fotografia. Uma mulher idosa, uma bengala, um balde de plástico e uma postura recolhida pareciam oferecer ao observador uma história pronta. A imagem, entretanto, escondia mais do que revelava.
Somente mais tarde, ampliando a fotografia durante a edição, notei um detalhe que havia me escapado no instante do disparo. Dentro do balde que a mulher trazia consigo repousava um pequeno papel dobrado. Não era uma lista de compras, nem um documento. Eram versos:
"Glória a Jesus na eucaristia. Cantemos todos sem cessar. Certos também que de Maria bênçãos a pátria há de ganhar."
Não foi possível ignorá-los.
Enquanto o olhar moderno se ocupa em contabilizar faltas, a fé insiste em falar outra língua. Uma língua antiga, muitas vezes incompreensível para quem exige garantias e resultados, mas suficientemente forte para sustentar uma existência inteira.
Talvez a verdadeira pobreza não seja a de quem se senta em silêncio numa praça, carregando um balde de plástico e uma bengala. Talvez ela comece quando desaparece a capacidade de confiar em alguma coisa maior do que nós mesmos.
A cabeça inclinada sugere recolhimento, mas não derrota. O corpo envelhecido acusa o peso dos anos, mas não da rendição. Existe, naquela postura, uma serenidade que a pressa contemporânea desaprendeu.
Chamamos de solidão aquilo que os outros vivem. Chamamos de companhia aquilo que conseguimos ver.
Nem sempre são a mesma coisa.
