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Patrimônio Prospectivo: Gravidade

Gravidade negativa

Date
2026
Location
Skatepark do Subúrbio, Bahia, Brasil

Texto Curatorial

Há coisas que parecem impossíveis apenas até alguém decidir fazê-las. A juventude, aqui personificada pelo atleta Vicente Rigobello, possui uma relação particular com essa fronteira: diante de uma dificuldade, ainda não acumulou todas as razões que a experiência costuma reunir para explicar por que não vai dar certo. Olha, calcula o que consegue, acredita no próprio impulso e vai.

Foi assim que recebi esta manobra. Não como demonstração de alguém que desconhece seus limites, mas como afirmação de quem ainda não aceita que eles sejam definitivos. Existe uma espécie de confiança juvenil em colocar a tentativa antes da dúvida. A pergunta deixa de ser “será possível?” e passa a ser “como fazer?”. A diferença parece pequena, mas muda completamente a relação com o desafio.

No skate, a gravidade estabelece uma regra muito clara. O que sobe precisa descer. O que perde apoio precisa encontrar novamente uma superfície. Por alguns instantes, porém, essa regra parece suspensa. A manobra cria sua própria lógica, e o que deveria ser queda se transforma em controle. A dificuldade não desaparece. Ela é enfrentada.

Talvez seja isso que mais me fascine na juventude: a disposição para experimentar antes de aceitar que alguma coisa seja impossível. Existe energia para tentar novamente, coragem para errar e uma confiança quase insolente na possibilidade de conseguir. Nem sempre funciona. Quando funciona, porém, quem estava olhando precisa rever suas próprias medidas.

A fotografia nasce desse instante em que uma tentativa se transforma em realização. O que parecia exagero se torna concreto diante dos olhos. O impossível, por alguns segundos, perde sua autoridade.

E talvez seja essa a grande provocação do skate: alguém acredita que consegue, vai lá e faz. Depois, resta a quem assiste a tarefa mais simples e mais difícil de todas: ficar boquiaberto.

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