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Patrimônio Prospectivo: Gravidade

Do que vale o paraíso sem amor?

Date
2026
Location
Skatepark do Subúrbio, Salvador, Bahia

Texto Curatorial

Além do horizonte existe uma espécie de promessa. Pode ser a canção que conhecemos, pode ser a imagem de uma fronteira vencida, pode ser apenas essa vontade humana de descobrir o que começa depois do limite. Talvez seja por isso que sonhar seja tão bonito: por alguns instantes, o impossível aceita ser imaginado.

Foi o que pensei ao ver Fernanda atravessar o horizonte da Baía de Todos os Santos. Na fração de segundo em que sua cabeça alcançou uma altura que parecia pertencer ao céu, talvez tenha surgido outro mundo. Não sei se viu um dragão, um navio despencando borda abaixo, uma cidade suspensa ou nada além do próprio movimento. Prefiro não decidir por ela. O maravilhoso precisa conservar alguma liberdade.

O amor pode aparecer como força da invenção. Talvez seja ele que transforme uma travessia física em desejo, uma altura em vertigem, um salto em promessa. O corpo sobe, mas é a imaginação que consegue ir muito mais longe.

De onde eu estava, uma plateia incrédula acompanhava o salto. Não duvidava de que Fernanda pudesse fazê-lo. O espanto estava na altura que conseguiu alcançar, como se, por um instante, tivesse deslocado a medida do possível para o território do inimaginável.

Talvez seja esse o paraíso: o breve momento em que acreditamos poder atravessar o horizonte. E, se existe amor nessa passagem, talvez amar seja inventar um mundo onde chegar mais longe faça sentido.

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