Patrimônio Prospectivo: Gravidade
Deitado eternamente em berço esplêndido
- Date
- 2026
- Location
- Skatepark do Subúrbio, Salvador, Bahia
Texto Curatorial
“Deitado eternamente em berço esplêndido” poderia ter sido escrito para esta imagem. A frase pertence ao segundo movimento do Hino Nacional, cuja música, de Francisco Manuel da Silva, foi composta em 1831; a letra de Joaquim Osório Duque Estrada surgiu em 1909 e seria oficializada em 1922. O verso imagina o Brasil repousado em um berço grandioso, embalado pelo mar, iluminado pelo céu e pelo sol do Novo Mundo.
Aqui, a expressão encontra uma estranha correspondência. O “berço” deixa de pertencer à geografia da pátria e passa a existir como uma condição imaginária do corpo. O descanso ganha a leveza de uma suspensão, enquanto a pista parece ter perdido, por um instante, sua escala habitual. A lente comprime distâncias e aproxima planos separados, produzindo proximidade. Nenhum efeito posterior fabrica essa ilusão; ela nasce da óptica e da posição de quem olha.
Esse Hino poderia ter esperado dois séculos por esta heresia. O Brasil descrito por Duque Estrada repousa sob o céu; aqui, um skatista parece repousar dentro dele. A solenidade nacional encontra uma prática que transforma equilíbrio em linguagem e a gravidade em matéria de imaginação.
Há graça nessa coincidência. Se dois e dois podem ser cinco, talvez um berço também possa ser uma pista, desde que a fotografia encontre a distância exata para nos fazer acreditar.
