Exposição Pantanal Revelado - a Alma de um Território
Dois cascudos não se beijam
- Date
- 2026
- Location
- Porto Jofre, Pantanal, Brasil

Texto Curatorial
A vida é dura e vai continuar sendo. Sobreviver implica fome, disputa, risco, perda e morte. O jacaré não precisa ser cruel para matar o cascudo. Precisa comer.
Nós, porém, julgamos a natureza com critérios criados para organizar a vida humana. Chamamos de crueldade o que, entre pessoas, envolve intenção, escolha ou prazer em ferir. Depois aplicamos a mesma palavra ao animal, como se ele devesse obedecer ao nosso código moral.
Talvez seja porque fomos educados por histórias em que sempre existe um mocinho, um vilão e uma vítima. Hollywood e novela das oito: aprendemos a escolher um lado e esperar que o bem vença. A natureza não tem roteiro. O cascudo não é inocente, o jacaré não é perverso. Um come. O outro é comido.
Também preferimos manter distância do que sustenta nossa própria sobrevivência. Trabalhamos, recebemos dinheiro, entramos no supermercado e encontramos tudo limpo, embalado e porcionado. A morte necessária para o alimento chegar até nós desaparece da vista. Terceirizamos a caça e preservamos a sensação confortável de que comer não tem relação com matar.
É por isso que esta imagem incomoda. Não porque o jacaré tenha feito algo extraordinário, mas porque ele nos obriga a assistir ao processo inteiro. Sem embalagem, balcão refrigerado ou narrativa que decide quem merece compaixão.
A vida não assinou contrato. Continua acontecendo em sua brutalidade. Cada espécie encontra sua forma de sobreviver. O cascudo virou alimento. O jacaré seguirá procurando outro. E nós seguiremos encontrando maneiras de não olhar para a parte da história que preferimos esquecer.