Nego Fugido
Nego fugido
- Date
- 2026
- Location
- Acupe, Aratuípe, Bahia
Texto Curatorial
Minhas fotografias têm vida própria.
Durante muito tempo atribuí essa autonomia aos detalhes descobertos apenas depois da captura. Parecia natural acreditar que a passagem do tempo ampliava aquilo que meus olhos não haviam alcançado quando o obturador se fechou. A experiência, porém, impôs outra compreensão. O arquivo conserva a mesma forma; transforma-se, em silêncio, quem regressa para contemplá-lo. Cada reencontro reorganiza lembranças, desloca significados e devolve perguntas inexistentes no instante da fotografia. A transformação nunca pertenceu à imagem. Sempre pertenceu ao fotógrafo.
Hoje, entre todas as fotografias realizadas no Nego Fugido, esta é a minha favorita. Amanhã poderá ser outra, não porque a imagem tenha mudado, mas porque eu já não serei o mesmo. Cada fotografia guarda uma parte de mim e, depois de concluída, conquista uma autonomia que jamais consigo recuperar.
A primeira lembrança despertada por esse retrato foi o Coringa. Não apenas o personagem, mas a tatuagem gravada em uma das minhas mãos desde o período em que enfrentei a depressão; jamais como celebração da dor, sempre como recusa ao esquecimento. A depressão existe, destrói vidas e precisa ser pronunciada com a mesma naturalidade reservada a qualquer outra doença. O silêncio nunca constituiu forma de cuidado. Na outra mão repousa uma flor de lótus; ambas pertencem ao mesmo compromisso: reconhecer a profundidade da escuridão sem permitir que ela escreva, sozinha, a história de uma vida.
O Nego Fugido devolveu essa lembrança sem recorrer à palavra.
O vermelho anuncia o riso; os olhos, entretanto, anulam qualquer possibilidade de inocência. Dessa fratura nasce uma expressão que permanece aberta e exige sucessivos regressos, porque nenhuma contemplação consegue esgotá-la.
Minhas fotografias continuam vivas pela mesma razão.
Enquanto a vida prosseguir transformando quem sou, continuarão revelando quem ainda desconheço.
