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Nego Fugido

O pito

Date
2026
Location
Acupe, Santo Amaro, Bahia, Brasil

Texto Curatorial

O charuto que aparece nesta fotografia integra a caracterização de um personagem do Nego Fugido, manifestação popular de Acupe, distrito de Santo Amaro, na Bahia. Sua leitura exige considerar a história cultural da comunidade e as relações da apresentação com tradições religiosas afro-brasileiras. A ligação do Nego Fugido com o Candomblé faz parte de sua formação, embora essa relação não autorize atribuir automaticamente uma função ritual específica a cada objeto utilizado durante a encenação.

O fumo possui significados próprios em diferentes tradições religiosas afro-brasileiras. No Candomblé de Caboclo, por exemplo, o uso de charutos pode estar associado a entidades e práticas específicas, conforme a tradição de cada casa. Essa referência, contudo, não basta para determinar o significado do objeto retratado. É necessário distinguir os usos documentados nas religiões afro-brasileiras das funções que o charuto assume na caracterização dos personagens do Nego Fugido.

O título, “O pito”, aproxima a fotografia da linguagem cotidiana. A palavra nomeia o objeto por meio de uma expressão popular cuja familiaridade contrasta com a densidade histórica e religiosa das referências relacionadas à manifestação. A escolha não encerra o significado do charuto. Estabelece uma relação com os modos pelos quais uma comunidade reconhece e nomeia elementos de sua própria cultura.

A caracterização dos personagens integra uma construção coletiva, formada por roupas, pintura, objetos e modos de atuação. Esses componentes compõem uma linguagem transmitida entre gerações, cuja continuidade depende de conhecimentos compartilhados e de sua atualização durante as apresentações. O charuto participa dessa composição, sem que sua função possa ser explicada isoladamente das práticas que constituem o Nego Fugido.

A relação com o Candomblé não transforma automaticamente cada elemento da encenação em símbolo religioso. A manifestação reúne referências que convivem sem perder suas particularidades. Sua teatralidade possui organização própria, ligada à narrativa da escravidão, da captura e da liberdade, enquanto suas relações religiosas remetem à história cultural da comunidade.

O pito desloca a atenção para um objeto familiar cuja compreensão exige investigação. A fotografia permite considerar os conhecimentos envolvidos na caracterização e reconhecer a complexidade cultural da construção do personagem. O charuto não oferece uma explicação definitiva sobre a figura retratada. Sua leitura exige distinguir o que se conhece sobre a tradição das interpretações despertadas pelo registro.

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