O Dono do (seu) mundo - o trem de Sr. Gray

No trem antigo da Estação da Calçada, este gato cinza parece ter resolvido uma questão que nós, humanos, complicamos bastante: quem é dono de quê?

Eu não gosto especialmente de gatos. Nunca maltratei um animal, preciso dizer isso porque hoje em dia tudo parece exigir uma declaração de caráter, mas a independência deles me incomoda. Sei que muita gente admira essa característica, nos gatos e nas pessoas. Eu não! Gosto de calor humano, de me relacionar, de construir junto, da troca. O ser humano é muito mais social que um gato, embora sempre apareça alguém disposto a apresentar uma exceção para contrariar uma generalização. Falo da maioria, em característica.

Este, porém, me desarmou.

Há nele uma pompa, uma autoestima e uma certeza de comando que me fizeram chamá-lo de Sr. Gray. Fui eu que lhe dei o nome. Escolhi pela pompa, porque havia nele uma altivez quase aristocrática e pela certeza de comando que aquele gato parecia carregar consigo.

Eu estava com uma teleobjetiva e me aproximei de propósito. Queria ver se ele se mexeria com medo de um objeto grande, branco, com um doido desconhecido encostando. Cheguei a uns trinta centímetros; a lente avisou que ja não focaria dali. Ele não se mexeu, nem uma orelha. Foi curioso perceber que eu havia chegado para testar a coragem dele, quando talvez fosse a minha que estivesse sendo testada.

Perguntei aos seguranças da estação e descobri que o trem é a casa dos gatos. Há outros vivendo nele, embora tenha recebido informações diferentes sobre serem dois ou três. Porém, todos declararam a mesma certeza sobre quem mandava naquela casa: o Sr. Gray.

Talvez seja isso que me fascine. Para mim, o trem é patrimônio, memória, arquitetura e história. Para ele, é simplesmente casa. Eu chego com uma câmera para observar; ele permanece no lugar que conhece. Eu preciso escolher a distância; ele não precisa sequer considerar a minha presença.

O título nasceu dessa inversão. O mundo é dele. O “seu”, entre parênteses, é minha tentativa de reivindicar alguma coisa que talvez pertença apenas a quem soube ocupa-la.

Thiago Aquino - t.a., 2026. Estação da Calçada, Salvador, Bahia.
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