Auto turíbulo

O charuto acendeu uma associação imediata com os turíbulos que conheço das missas católicas. A fumaça subia, espalhava-se pelo espaço e desaparecia, levando consigo uma expectativa que sempre me pareceu difícil de nomear. Não se trata de estabelecer uma relação entre práticas religiosas distintas. Minha referência à Igreja Católica vem sobretudo da criação; não me considero católico. As referências que tenho de Deus pertencem a uma relação particular, entre mim e ele. Também estive em terreiros e roças de religiões de matriz africana. Nada disso determina a leitura que fiz naquele momento.

O que me interessou foi a possibilidade de a fumaça carregar um desejo. Sorte, bênção, boas energias, alguma forma de proteção. Os charutos circulavam entre as pessoas, acompanhavam a interação, aproximavam corpos e pareciam participar de uma experiência compartilhada. Não fumo e não tenho relação com a fumaça. Ainda assim, aquela matéria suspensa encontrou em mim uma pergunta.

Pensei em purificação. Não como explicação para o que acontecia, mas como uma imagem mental para tudo que eu desejaria ver levado para longe: as raízes da violência, a injustiça, a cobrança, a solidão, a dureza que a vida acumula. Existe uma vontade humana de deixar partir o peso sem precisar transformar toda experiência em algo maior, mais complicado, mais distante da simplicidade.

Foi talvez essa simplicidade que encontrei no Nego Fugido. Uma cultura que eu conhecia pouco, formas de viver e perceber o mundo que ampliaram minha experiência, uma história que deixou de ser conhecimento distante e ganhou outra proximidade. Entre tantas sensações, permaneceu a percepção incômoda de que partes dessa história continuam vivas. Há marcas que deveriam ter sido superadas, estruturas que ainda exigem transformação, feridas cuja permanência impede que a memória seja tratada apenas como passado.

Talvez a fumaça tenha permanecido porque não oferece uma solução. Ela apenas atravessa, modifica-se, perde forma e segue. Existe nessa passagem uma espécie de desejo que reconheço: deixar para trás o que precisa terminar, sem apagar o que precisa ser lembrado.

Eu voltarei ao Nego Fugido. Quando uma experiência toca minha alma, retorno. Sempre fui fiel ao que me faz bem, ao que me desloca, ao que continua produzindo alguma coisa em mim depois que termina. Talvez voltar seja uma maneira simples de permanecer próximo das perguntas que ainda não encontrei como responder.

2026
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