A cor não é uma coincidência

As cores estão entre os elementos da composição que mais me atraem. Sou baiano, e essa relação atravessa há muito tempo a maneira como percebo a Bahia e a África. Também reconheço essa atração em escolhas pessoais, como meu gosto por tênis e roupas coloridas. Durante algum tempo, comecei a perceber essa recorrência e a me perguntar se ela poderia ter alguma relação com experiências culturais que ultrapassassem uma preferência individual. Foi então que decidi pesquisar.

Procurei estudos que pudessem me ajudar a entender se existiam relações documentadas entre populações negras e determinadas formas de perceber, escolher ou atribuir significado às cores. Encontrei pesquisas de percepção cromática realizadas na África e nos Estados Unidos, com resultados que mostram diferenças entre determinados grupos, mas que não sustentam a ideia de uma preferência racial inata. Também encontrei trabalhos antropológicos que mostram como as cores podem ocupar lugares importantes em sistemas simbólicos, rituais e culturais de diferentes sociedades africanas.

Essa pesquisa me fez perceber que talvez a pergunta inicial estivesse mal formulada. Não se trata de descobrir se pessoas negras “gostam mais de cores”, como se houvesse uma característica comum capaz de explicar uma experiência tão diversa. A questão se torna mais interessante quando observamos o que diferentes culturas fazem com a cor e os significados que podem ser construídos ao redor dela.

Para mim, isso aproxima a pesquisa da própria fotografia. A intensidade cromática que me atrai não precisa ser explicada por uma única origem. Ela pode se relacionar com percepção, repertório, memória, cultura, identidade ou simplesmente com a força que determinadas combinações exercem sobre o olhar. O que eu procurava como uma resposta acabou ampliando a pergunta.

(Se esta fotografia despertou em você a mesma curiosidade que me levou a pesquisar, vale continuar. Na página Fragmentos está o texto integral e original desta reflexão, com o mesmo título e a mesma fotografia, onde apresento os estudos e desenvolvo as questões que aqui aparecem apenas parcialmente. Acesse Fragmentos e leia a investigação completa por trás desta imagem.)

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