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Patrimônio Prospectivo: Gravidade

Vou amarrar meu barco na sombra

Date
2026
Location
Skatepark do Subúrbio, Salvador, Bahia

Texto Curatorial

Peço licença poética ao burro. Talvez ele saiba alguma coisa sobre a sombra que nós, tão ocupados em atribuir utilidade às coisas, esquecemos de perceber. Aqui, o barco parece ter compreendido antes de nós uma espécie de sabedoria antiga: permanecer onde a luz não exige esforço.

Gosto da frase porque ela desloca uma imagem conhecida sem precisar justificá-la. O barco deixa de ser somente aquilo que conduz alguém pela água e passa a carregar uma pequena hipótese sobre descanso, abrigo e desejo. A sombra torna-se destino. A baía, em sua tonalidade cinzenta, oferece o cenário perfeito para essa espécie de pensamento silencioso.

Então surge o skatista, atravessando essa tranquilidade com uma presença que parece pertencer a outra ordem. Sua manobra introduz uma ruptura delicada, quase absurda, e a compressão dos planos aproxima mundos que, em condições ordinárias, permaneceriam separados. A luz acesa acrescenta outra camada. Há alguém por perto, ou houve alguém. Não importa descobrir. Basta a possibilidade de uma presença humana permanecer inscrita no espaço.

A fotografia me lembra que o olhar não recebe o mundo pronto. Ele reorganiza proximidades, estabelece parentescos improváveis, inventa continuidade onde talvez houvesse apenas coincidência. Um guarda-sol pode cuidar de um barco. Uma sombra pode virar lugar. Um movimento pode atravessar uma paisagem sem precisar pertencer inteiramente a ela.

Talvez fotografar seja aceitar essas pequenas desobediências do real. Não para corrigi-las, tampouco para explicá-las, mas para lhes conceder tempo suficiente para que outra leitura aconteça. O que vejo aqui não precisa coincidir com o que outro verá. É justamente essa liberdade que permite à imagem continuar depois do instante.

ENPTES