Patrimônio Prospectivo: Gravidade
Clave de sol
- Date
- 2026
- Location
- Skatepark do Subúrbio, Salvador, Bahia
Texto Curatorial
O desenho do corpo de Fernanda Galdino me remeteu imediatamente a uma clave de sol. Talvez porque, na infância, meu irmão e eu aprendíamos teclado, e a leitura de partituras fazia parte daquele pequeno universo doméstico. Era justamente a parte que mais me entediava. Havia uma precisão matemática naquela escrita que parecia distante daquilo que eu imaginava ser a música. Hoje percebo o equívoco. A música também é cálculo, proporção, intervalo, duração, repetição e movimento. Talvez por isso eu me arrependa de não ter continuado. Minha mãe dizia que um dia eu me arrependeria. Ela tinha razão.
A música possui uma capacidade singular de nos alcançar por dentro, muitas vezes antes que consigamos compreender sua estrutura. Uma sequência de notas pode alterar a respiração, convocar lembranças, modificar o ritmo do corpo. A fotografia possui algo dessa potência quando encontra uma forma capaz de continuar vibrando depois que o instante terminou.
Aqui, as diagonais parecem escrever no espaço. O corpo estabelece uma linha, o skate prolonga outra, o braço acrescenta uma direção, e dessas relações surge uma espécie de partitura corporal. As linhas naturais do movimento encontram a geometria da composição e transformam a manobra em escrita.
A gravidade funciona como o compasso invisível dessa música. Ela determina a tensão, exige precisão, oferece resistência. Fernanda parece inscrever uma frase no espaço por uma fração de segundo, e a fotografia conserva sua grafia.
Talvez seja essa a aproximação que mais me interessa: a partitura transforma o som em sinais; a fotografia transforma o movimento em forma. Ambas preservam uma passagem que, sem registro, desapareceria no instante seguinte.
