A boniteza do retrato estranho

Caretas de Acupe

As Caretas de Acupe, município de Aratuípe, chegam à fotografia a partir de uma tradição cuja força não depende de uma origem única. As narrativas transmitidas na comunidade associam seu surgimento à escravização, às festas dos engenhos e a estratégias de disfarce e fuga. A pesquisa registra essas versões sem documentação capaz de fixar uma cronologia definitiva.

Sua continuidade combina fabricação, aprendizado e transmissão. A confecção das peças, a pintura, a indumentária e a música passam entre gerações. Mestres assumiram a responsabilidade por sua continuidade. Oficinas com jovens de Acupe ampliaram esse aprendizado.

A experiência das Caretas costuma chegar à fotografia através da intensidade da festa. Corrida, perseguição, susto e aproximação oferecem imagens de grande impacto, mas podem reduzir a figura ao efeito visual de sua aparição. A tradição corre o risco de ser recebida como exotismo, separada das relações que a sustentam.

Este projeto escolhe outra operação: realizar retratos. Por que uma Careta de Acupe não mereceria um retrato?

O retrato estabelece uma relação diferente com a figura. Enquadramento, escala, iluminação, distância e direção passam a construir a situação fotográfica. A personagem mascarada recebe a atenção historicamente associada ao retrato. Aqui, porém, a identificação se torna instável. A máscara não apaga necessariamente quem a veste; cria outra condição para sua representação.

O deslocamento produz a questão fotográfica. Quem está diante da câmera: a pessoa, a personagem ou a relação criada entre ambas? O retrato não precisa escolher. Sua força pode estar na impossibilidade de separar completamente essas dimensões.

Ao conceder às Caretas uma forma tradicional de representação fotográfica, o projeto desloca a posição que lhes costuma ser atribuída nas imagens da festa. A figura fotografada em movimento passa a sustentar uma imagem construída para sua contemplação, sem abandonar a complexidade cultural que lhe deu origem.

A fotografia encontra uma questão sobre quem recebe o direito de ser retratado quando uma personagem criada para ocultar o rosto ocupa, diante da câmera, o centro da imagem.

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