Tempo
Dia e noite, não e sim

Texto Curatorial
Há uma dificuldade em imaginar a vida sem seus contrários. A alegria ganha contorno diante da tristeza; o dia encontra sua medida na noite; um sim só adquire peso porque o não também existe. Não são forças destinadas a se anular. São experiências que se sucedem e, por vezes, coexistem.
A fotografia aproxima duas formas de vida em momentos distintos de seus percursos. A locomotiva carrega no ferro as consequências de décadas, enquanto uma planta começa a ocupar o espaço. Uma não corrige a outra. O início de um percurso não transforma o fim de outro em fracasso. O tempo alcança cada existência de maneira diferente.
Na locomotiva, sua ação tornou-se concreta na corrosão, na perda de função e nas alterações acumuladas pela exposição prolongada. Na planta, assume a forma do crescimento. A mesma duração que afasta uma máquina de sua finalidade oferece a um organismo condições para desenvolver-se. O tempo não produz um único destino.
Talvez seja a dificuldade humana: aceitar que a vida não se organiza segundo nossa preferência. Há expansão e perda, encontro e separação, nascimento e despedida. A maturidade pode estar em compreender o lugar de cada fase dentro de uma existência inteira.
A proximidade entre a locomotiva e a planta não estabelece uma oposição. Coloca em relação duas respostas à ação temporal. Uma história chega a um limite; outra começa. Entre ambas, o tempo deixa de ser abstração e ganha consequências: modifica, encerra, inicia e transforma. Um fim pode coincidir com um começo.