Será que realmente temos um problema? - A doença de Lito Sousa

Há fotografias que pedem tempo. São, quase sempre, as que mais gosto. Às vezes tomo uma taça de vinho e me debruço sobre um livro de um fotógrafo de que gosto. Entre uma página e outra, encontro uma imagem na qual me perco por oito, dez minutos. O tempo passa sem que eu perceba, enquanto observo uma luz, uma sombra, uma pequena relação entre as coisas que talvez nem consiga explicar. É uma experiência silenciosa, íntima, que me acalenta. E talvez seja justamente nesse estado, quando o olhar deixa de procurar respostas imediatas, que algumas fotografias começam a tocar em coisas que existem muito além delas.

Talvez seja nesse tempo que eu comece a pensar sobre a dimensão que damos aos problemas que carregamos. Alguns são concretos, dolorosos, incontornáveis. Outros nascem de circunstâncias que nos atravessam e permanecem conosco por muito tempo. Há ainda aqueles que ganham proporções maiores pela maneira como interpretamos o que nos acontece.

Eu sei disso também pela experiência. Já tive depressão. Sei que existem dores que podem ser avassaladoras e que, para atravessá-las, muitas vezes é preciso força, decisão e uma enorme disposição para continuar. O que não ajuda é quando alguém reduz esse sofrimento a uma bobagem, manda reagir ou compara a dor de uma pessoa com a de outra. Menosprezar o sofrimento não faz com que ele desapareça.

Talvez por isso eu tenha aprendido a prestar mais atenção. Em mim, mas também nos outros.

A dor das outras pessoas me toca. Ela me interessa porque revela algo que ultrapassa a experiência individual. Cada pessoa carrega histórias que não conhecemos, feridas que não vemos e problemas que podem parecer pequenos para quem observa de fora, mas que, por dentro, podem ocupar um espaço imenso.

Também aprendi que nem toda dor nasce de um acontecimento extraordinário. Algumas surgem de situações concretas. Outras são construídas lentamente pela forma como interpretamos o mundo, pelas expectativas que criamos, pelo medo, pela culpa, pela solidão ou pela dificuldade de encontrar outra maneira de olhar para aquilo que nos acontece.

A vida tem uma capacidade estranha de mudar de escala. Aquilo que ontem parecia impossível pode, algum tempo depois, ocupar um espaço diferente. E aquilo que julgávamos pequeno pode revelar uma importância que não havíamos percebido.

Mas será que realmente temos um problema?

Aqui não quero vestir a dor de ninguém, nem enxergar com lupa de aumento ou dando pouco valor.

É impossível pensar nessa pergunta sem lembrar de Lito Sousa.

Lito recebeu o diagnóstico de Doença de Creutzfeldt-Jakob, uma enfermidade neurológica rara e degenerativa, que hoje não tem cura. A notícia chegou para uma pessoa que ainda tinha planos, uma esposa ao lado e um filho crescendo diante dos seus olhos. De repente, o futuro deixou de ser uma ideia distante. O tempo passou a ter outro peso.

Há uma crueldade particular em saber que o corpo pode impor um fim enquanto a consciência ainda permite compreender tudo o que está acontecendo. Lito sabe que talvez não veja o filho crescer. Sabe que terá de enfrentar despedidas que ninguém deveria precisar antecipar. Há lágrimas, medo, tristeza. Há o sofrimento de quem gostaria simplesmente de continuar vivendo.

E, mesmo assim, ele não transformou a própria história em uma reclamação.

Lito menciona o filho, a esposa e o desejo de continuar aqui. Chora quando a emoção transborda, mas também encontra espaço para o humor e para uma esperança que parece quase impossível. Diz que é uma pessoa rara e que, por alguma ironia da vida, até uma doença raríssima teria de encontrá-lo. E vai além: acredita que poderá ser o primeiro do planeta a vencer essa doença.

Talvez aconteça. Talvez não.

O futuro não está nas mãos dele, nem nas nossas.

Mas existe algo nessa atitude que me parece maior do que qualquer prognóstico. O resultado pode ser incerto; a maneira de atravessar o caminho, não. Lito poderia ter escolhido a revolta. Poderia ter transformado cada dia em uma acusação contra a vida. Em vez disso, continua falando de possibilidades, de amor, do filho, do tempo que gostaria de ganhar.

E é justamente nesse ponto que essa história me alcança.

Porque, quando penso em tudo isso, fico constrangido diante de certas reclamações que fazemos. Não porque nossas dificuldades sejam falsas, mas porque muitas vezes reclamamos de coisas que ainda podem ser resolvidas, enquanto Lito enfrenta uma realidade para a qual talvez não exista saída.

Ele tem uma doença rara. Nós temos uma vida que, muitas vezes, tratamos como se fosse garantida.

Talvez seja essa a diferença que mais importa.

A fotografia me salvou de muitas das minhas próprias dores. Não tenho dúvida do poder que ela pode exercer sobre uma vida. Já encontrei nela silêncio quando precisava de silêncio, beleza quando quase não conseguia enxergá-la e um lugar para respirar quando tudo parecia pesado demais.

Mas até a fotografia tem um limite.

Diante de uma doença como a de Lito, ela não pode devolver os movimentos, prolongar o tempo ou impedir uma despedida. Pode nos fazer olhar, pensar, sentir. Não pode mudar tudo.

E talvez seja justamente por isso que eu volte tantas vezes para uma foto: porque ela me ensinou a olhar para a vida com mais atenção, sabendo que algumas coisas ainda podem ser transformadas, outras precisam ser enfrentadas e algumas, por mais que desejemos, simplesmente não estão nas nossas mãos.

Quando penso em Lito, não penso apenas no que pode acontecer com ele.

Penso no que fazemos com o tempo que ainda temos.

Porque talvez o maior problema não seja ter problemas.

Talvez seja passar pela vida reclamando do que falta, sem perceber que, para alguém, neste exato momento, o que nós chamamos de vida já seria tudo.

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