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Patrimônio Prospectivo: Relações Sociais

O campeonato da vida real

Date
2026
Location
Skatepark do Subúrbio, Praia Grande, Bahia, Brasil

Texto Curatorial

Existe uma dimensão da existência cuja grandeza escapa aos sistemas convencionais de reconhecimento. Não há júris capazes de aferir a extensão de uma renúncia, medalhas que correspondam à responsabilidade de sustentar uma família ou premiações que traduzam o esforço necessário para reconstruir a própria vida. As conquistas mais decisivas raramente recebem testemunhas. Desenvolvem-se na intimidade, sob o peso de circunstâncias que não figuram em nenhuma classificação.

Cada indivíduo estabelece uma relação particular com a adversidade. Há quem enfrente os leões, quem tenha aprendido a criá-los e quem organize a própria sobrevivência em torno da fuga. As diferenças entre essas trajetórias não autorizam hierarquias. A existência não oferece condições equivalentes de partida, tampouco distribui os obstáculos segundo qualquer princípio de justiça. Cada pessoa dispõe de recursos distintos para enfrentar aquilo que lhe cabe, e frequentemente a vitória consiste em alcançar o dia seguinte sem renunciar à própria dignidade.

A sociedade costuma reconhecer o resultado e negligenciar a duração do esforço. Ignora as derrotas que antecederam uma conquista, a disciplina exercida sem recompensa imediata, o trabalho executado sob exaustão, o choro recolhido longe dos olhares. Há indivíduos cuja batalha mais severa transcorre sem qualquer manifestação exterior. Continuam a trabalhar, educar os filhos, estudar, cuidar dos seus e reorganizar a existência depois de cada revés. Sua grandeza não depende da consagração pública. Reside na responsabilidade assumida diante da vida.

Costumo dizer que é a vida que imita a arte. A leveza, nesse caso, não corresponde à ausência de gravidade, mas à faculdade de conservar a esperança sem ignorar a dureza do real. A força tampouco se confunde com invulnerabilidade. Há coragem em reconhecer o esgotamento, solicitar ajuda e admitir a própria fragilidade. A disciplina, por sua vez, exige aceitar a monotonia dos dias, a repetição do trabalho e a lentidão dos processos cuja recompensa não está assegurada.

Talvez o campeonato da vida real não consagre vencedores no sentido habitual. Seu título pertence àqueles que, mesmo conhecendo a derrota, não entregam ao infortúnio a autoridade de decidir o destino. A vitória de alguém não constitui a derrota de outro. Quando a competição deixa de organizar as relações humanas, o companheiro deixa de ser adversário. Resta a possibilidade de reconhecer, na luta alheia, uma dignidade tão legítima quanto a própria.

ENPTES
O campeonato da vida real | Thiago Aquino | Thiago Aquino