Pantanal (Projeto 1)
Boca de Ariranha
- Date
- 2026
- Location
- Pantanal, MT

Curatorial text
Sei que a onça ocupa, há décadas, um lugar soberano no imaginário do Pantanal e também no meu. Sei que nenhum outro animal sintetiza com tamanha perfeição a ideia de força, mistério e poder. Mas há traições afetivas que a própria natureza parece exigir. E, hoje, a fotografia que mais me inquieta, sentimento provisório, como costumam ser todas as paixões verdadeiras, não pertence a uma onça. Pertence a uma ariranha.
Talvez porque a ariranha jamais tenha aceitado ser apenas um animal.
Entre os mamíferos sul-americanos, poucos desenvolveram uma vida social tão complexa. Vivem em famílias extensas, educam coletivamente seus filhotes, patrulham territórios, vocalizam incessantemente e sustentam, por meio de um sofisticado repertório sonoro, uma estrutura de convivência e proteção raramente observada com tamanha intensidade na natureza. Seus chamados de alarme, reconhecimento, reunião e apaziguamento transformam rios e corixos em territórios acústicos de extraordinária complexidade.
Parece haver, na ariranha, uma espécie de desproporção poética entre corpo e coragem. Como se a natureza tivesse decidido concentrar, em um animal de dimensões relativamente modestas, uma bravura capaz de desafiar predadores, defender filhotes e sustentar a coesão de um grupo inteiro.
Porque ela é, afinal, um animal de bravura desproporcional. Organiza-se, protege seus filhotes, enfrenta invasores e, quando necessário, confronta até mesmo a onça-pintada, desde que possa fazê-lo ao lado daqueles que reconhece como seus.
Talvez seja precisamente isso que eu ame.
Não os dentes. Não a caça. Nem mesmo a beleza da espécie.
O que amo nas ariranhas é sua recusa obstinada à solidão.
Nesta fotografia, entretanto, não vejo apenas uma ariranha alimentando-se. Vejo uma criatura capaz de reunir, simultaneamente, delicadeza, brutalidade, inteligência, família e sobrevivência.
E talvez seja exatamente por isso que, entre todas as fotografias que produzi no Pantanal, esta seja, ao menos hoje, aquela da qual sinto mais ciúmes.
Esta colocarei em minha parede em tamanho gigante!