Não dá mais, agora é cada um pro seu lado

“Não dá mais, agora é cada um pro seu lado” nasceu de um instante encontrado na rua, sem que eu pedisse às pessoas que sentassem ou direcionasse alguém para a luz ou para a sombra. O que me interessa, antes de qualquer interpretação, é a própria imagem, sua luz de fim de tarde, a densidade das sombras e suas cores.

As fantasias das crianças ocupam as duas partes inferiores e estabelecem entre si uma relação imediata. Cada lado reúne duas delas. Acima, a construção muda. Pernas humanas ocupam os quadrantes superiores e apontam para direções opostas. A divisão vertical ganha força porque separa esses sentidos.

São as pernas que dirigem a cena. Elas introduzem linhas de deslocamento que reorganizam o que as cores fizeram o olhar perceber primeiro. O enquadramento encontrou uma organização já formada, mas meu olhar cravou aquele segundo exato, fazendo-me clicar o disparador e transformando-a em composição.

A fotografia me interessa justamente porque essa leitura formal não explica sua força. Os quadrantes são uma possibilidade de leitura, não sua chave definitiva. A luz baixa modifica as cores, as sombras dão peso às figuras e a superfície da rua participa da construção tonal. Há informação visual suficiente para que o olhar encontre diferentes caminhos.

O título acrescenta outra camada. “Não dá mais, agora é cada um pro seu lado” transforma as duas direções numa frase imaginada, quase como se a própria fotografia comentasse sua divisão. Existe humor nessa formulação, mas a imagem não depende dele.

O interesse está na coincidência entre acaso e ordem. Uma situação espontânea adquiriu, dentro do enquadramento, relações de direção, cor, luz e repouso que se tornam perceptíveis quando a fotografia é observada com atenção. A imagem oferece essas leituras sem precisar escolher apenas uma, e nenhuma delas encerra o que vemos.

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Não dá mais, agora é cada um pro seu lado | Thiago Aquino | Thiago Aquino