Autoconfiança

Guardei a imagem acima por tempo suficiente para que ela se acomodasse em um lugar ambíguo do arquivo. Mantinha por ela um afeto sincero, embora distante do peso atribuído a outros trabalhos.

Há cerca de um mês, durante um período de inscrições, enviei 14 fotografias para uma galeria na Alemanha. Trata-se de uma instituição de relevância indiscutível, cujo histórico inclui exposições de Gordon Parks, McCurry e Sebastião Salgado, além de um projeto co-curado por Cindy Crawford. Submeti o material sob a convicção de que nunca entrariam em contato comigo, um Thiago qualquer. E, por isso, esqueci completamente do envio, mas faço muito… confesso.

Desde anteontem, o telefone registrava chamadas originadas em Charlottenburg, Berlim. Supus tratar-se de uma abordagem fraudulenta e desliguei algumas vezes. Hoje, enquanto escutava música e editava, toquei na tela por engano e atendi. Conversamos, inglês baiano com alemão, estou menos enferrujado do que pensei. Permaneci desconfiado até me dar conta de que eu mesmo havia submetido as imagens.

Ainda não existe nada concreto. Os galeristas demonstraram interesse não por esta foto sozinha, e solicitaram a construção de uma série articulada entre 8 e 15 obras, organizada como sequência em torno do tema e editada como ensaio, para reavaliar o trabalho em um futuro próximo. A Bahia está na moda!

Me senti assustado e não pretendia escrever sobre o fato, nem publicar a imagem. Sou rigorosamente crítico com o que produzo e busco continuamente fazer melhor. Preciso reconhecer que não consigo examinar o que faço com a mesma generosidade que dedico ao trabalho dos outros.

Não pretendo converter este contato em confirmação sobre a obra, tampouco atenuar a dimensão do acontecimento.

Quero compreender o que isso revela sobre a maneira como olho para aquilo que faço.

Tenho fotografias para estruturar a possível série e pretendo examinar tudo com calma. Espero também alcançar algum grau de pertencimento a essas imagens.

A premissa final é a necessidade de me acolher melhor, sem renunciar à exigência crítica indissociável do meu processo. Mas ir à Alemanha não seria de todo ruim.

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